Ciência ou Bruxaria?
Disciplina 09 de 14 · 7 tópicos · 62 afirmações

Pensamento, decisões e vieses

Aula em tópicos, na ordem dos capítulos de livros-texto de psicologia, e as afirmações da disciplina. Para responder e ver as explicações, jogue esta disciplina: as primeiras afirmações de cada dia são grátis.

01

O que é pensar: conceitos e esquemas

Pensar é operar sobre representações mentais: imagens, conceitos e categorias que agrupam coisas por semelhança. A mente não usa definições rígidas; organiza categorias em torno de protótipos e exemplares, o que explica por que um pardal parece “mais pássaro” do que um pinguim. Esquemas e roteiros guiam a interpretação das situações e preenchem lacunas, mas também distorcem o que lembramos. O raciocínio lógico depende fortemente do conteúdo: a maioria falha na tarefa das quatro cartas quando ela é abstrata, mas acerta quando o mesmo problema vira uma regra social, como conferir idade e bebida. O erro comum é imaginar o pensamento como lógica pura, independente de contexto e experiência.

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02

Dois sistemas: intuição e deliberação

Grande parte do pensamento é rápida, automática e sem esforço; outra parte é lenta, deliberada e custosa. O sistema rápido entrega respostas plausíveis quase de imediato, e o lento raramente as revisa, a menos que algo pareça errado. O problema do taco e da bola mostra isso: a resposta intuitiva “dez centavos” surge pronta e a maioria a aceita sem conferir. Isso contradiz a imagem do decisor racional que compara custos e benefícios antes de escolher. Inteligência alta ajuda em alguns problemas, mas não imuniza contra vieses; pessoas brilhantes caem nas mesmas armadilhas e às vezes defendem o erro com mais eloquência. Refletir exige tempo, dúvida e disposição para checar o palpite inicial.

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03

Heurísticas: atalhos de julgamento

Para estimar probabilidades, a mente usa atalhos que funcionam bem quase sempre e falham de modo previsível. Pela disponibilidade, julgamos frequente o que vem fácil à memória: mortes noticiadas parecem mais comuns do que doenças silenciosas. Pela representatividade, julgamos pelo quanto um caso se parece com o estereótipo, ignorando a proporção do grupo e as regras da probabilidade: uma combinação de traços parece mais provável do que um traço isolado, e esperamos que a moeda “compense” uma sequência de caras. Pela ancoragem, um número visto por acaso puxa a estimativa na sua direção, mesmo sem relação com a pergunta. O engano comum é supor que esses atalhos são defeitos de pessoas desatentas; eles são o modo padrão de pensar.

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04

Enquadramento, perdas e teoria do prospecto

A teoria do prospecto descreve como as pessoas avaliam ganhos e perdas em relação a um ponto de referência, não em valores absolutos. Perder dói mais do que ganhar a mesma quantia agrada, a chamada aversão à perda. Por isso, o modo de apresentar uma escolha altera a decisão: um tratamento descrito pela sobrevivência atrai mais do que o mesmo tratamento descrito pela mortalidade. A opção padrão pesa muito: onde a doação de órgãos é presumida, o consentimento é bem maior. Excesso de opções também pode travar a escolha: uma mesa com poucas geleias vendeu mais do que uma com muitas. O erro comum é acreditar que a forma de apresentar uma escolha é irrelevante para quem decide com cuidado.

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05

Vieses de julgamento e confiança

Alguns erros sistemáticos aparecem em quase todo julgamento. O viés de confirmação leva a buscar e lembrar o que apoia a crença e a descartar o que a contradiz. O viés retrospectivo faz o resultado parecer óbvio depois de conhecido, inflando a sensação de que “sempre soube”. O excesso de confiança aparece na calibração: quem diz estar 99% seguro erra bem mais do que 1% das vezes, e estudantes subestimam de forma grosseira seus prazos de entrega. O custo afundado leva a continuar investindo em algo só porque já se gastou nele, como ir a mais espetáculos por ter pagado o preço cheio. A mesma confiança indevida sustenta a fé no polígrafo, que mede ativação, não mentira.

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06

Solução de problemas e insight

Resolver problemas envolve representar a situação, escolher uma estratégia e avaliar o resultado. Algumas soluções chegam por passos, outras por insight, a reorganização súbita do problema. Dois bloqueios clássicos atrapalham. A fixidez funcional é a dificuldade de ver um objeto fora do seu uso habitual: no problema da vela, a caixa de tachinhas só vira suporte quando é entregue vazia, pois cheia ela é “a caixa das tachinhas”. O efeito Einstellung é a rigidez criada pela prática: depois de resolver vários problemas de jarros com a mesma fórmula, as pessoas deixam de enxergar a solução simples do próximo. O engano comum é achar que experiência só ajuda; ela também cria trilhos difíceis de abandonar.

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07

Decisões em grupo e multidões

Grupos podem decidir melhor ou pior do que indivíduos, dependendo de como combinam informação. A sabedoria das multidões aparece quando muitas estimativas independentes são agregadas: os erros se cancelam e a média costuma superar a maioria dos participantes. Essa vantagem some quando as pessoas se influenciam, convergem cedo ou buscam harmonia. O brainstorming em grupo é o exemplo mais conhecido: por bloqueio de produção, medo de avaliação e folga social, o grupo gera menos ideias, e não melhores, do que as mesmas pessoas pensando sozinhas e reunindo as listas depois. A polarização empurra opiniões iniciais para posições mais extremas. A crença comum de que discutir junto sempre melhora a decisão não resiste aos dados.

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