Ciência ou Bruxaria?
Disciplina 08 de 14 · 7 tópicos · 62 afirmações

Métodos e estatística

Aula em tópicos, na ordem dos capítulos de livros-texto de psicologia, e as afirmações da disciplina. Para responder e ver as explicações, jogue esta disciplina: as primeiras afirmações de cada dia são grátis.

01

Objetivos e tipos de pesquisa

Toda pesquisa começa com um objetivo: descrever um fenômeno, verificar se duas variáveis andam juntas ou testar se uma causa a outra. Estudos descritivos observam e registram; correlacionais medem associações, mas não autorizam conclusões causais, porque a direção pode ser inversa ou uma terceira variável pode explicar tudo. Só o experimento, em que o pesquisador manipula a variável independente e sorteia quem vai para cada grupo, permite falar em causa; o grupo controle é indispensável mesmo quando o tratamento parece óbvio. Desenhos transversais comparam pessoas num único momento; longitudinais acompanham as mesmas pessoas ao longo do tempo. A expectativa do pesquisador, demonstrada por Rosenthal até com ratos, e participantes que adivinham a hipótese ameaçam a validade; o duplo-cego protege contra ambas.

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02

Variáveis, escalas e amostragem

Um conceito abstrato como ansiedade só entra numa pesquisa depois de uma definição operacional, que diz exatamente como será medido; sem ela, ninguém consegue repetir o estudo. Variáveis podem ser qualitativas ou quantitativas, discretas ou contínuas, medidas em escalas nominal, ordinal, intervalar ou de razão, o que determina quais análises fazem sentido. Como raramente se estuda a população inteira, usam-se amostras: probabilísticas, quando todos têm chance conhecida de entrar, ou não probabilísticas, como as de voluntários, que podem diferir sistematicamente da população. Uma amostra bem sorteada de mil pessoas descreve um país com margem de erro de poucos pontos; uma amostra enorme mas enviesada não corrige nada. Sortear quem participa e sortear quem vai para cada grupo são coisas diferentes. A redação das perguntas também altera as respostas.

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03

Estatística descritiva

Antes de qualquer teste, os dados precisam ser resumidos e vistos. Medidas de tendência central apontam o valor típico: a média usa todos os valores e é sensível a extremos; a mediana divide o grupo ao meio e resiste a eles; a moda é o valor mais frequente. Medidas de dispersão dizem o quanto os dados se espalham: amplitude, variância, desvio padrão e intervalo interquartil. Histogramas, boxplots e gráficos de dispersão revelam assimetrias, valores atípicos e padrões que os números sozinhos escondem. Gráficos também enganam quando o eixo não começa em zero ou a escala é esticada. Além disso, uma relação observada no conjunto dos dados pode se inverter ao separar os subgrupos, o paradoxo de Simpson: agregar dados é uma decisão com consequências.

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04

Distribuições e a curva normal

Uma distribuição descreve quais valores uma variável assume e com que frequência. A mais conhecida é a normal, simétrica e em forma de sino, na qual cerca de 68% dos casos ficam a um desvio padrão da média e 95% a dois; muitas medidas psicológicas se aproximam dela, e escores padronizados como o z permitem comparar pessoas em escalas diferentes. Binomial e Poisson modelam contagens e eventos raros. O teorema central do limite explica por que a média de muitas amostras tende à normal mesmo quando os dados não são normais, base da inferência. A variabilidade produz ainda uma ilusão clássica: ao selecionar um grupo por valores extremos, a medição seguinte tende a se aproximar da média geral sem nenhuma intervenção, a regressão à média, frequentemente confundida com efeito de tratamento.

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05

Inferência: significância, intervalos e poder

A estatística inferencial usa a amostra para concluir sobre a população. No teste de hipóteses, parte-se da hipótese nula de ausência de efeito e calcula-se o valor p: a probabilidade de obter dados ao menos tão extremos quanto os observados se a nula fosse verdadeira. Ele não é a probabilidade de a nula ser verdadeira, e p menor que 0,05 é convenção, não fronteira natural. Um p pequeno indica evidência contra a nula, não um efeito grande: com amostras enormes, diferenças triviais ficam significativas. Por isso se reportam o tamanho de efeito, como o d de Cohen, e o intervalo de confiança, que mostra a faixa de valores plausíveis e estreita quando a amostra cresce. Poder é a chance de detectar um efeito real; estudos pequenos têm pouco poder e geram falsos negativos e estimativas infladas.

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06

Testes clássicos em linguagem simples

Cada pergunta de pesquisa combina com um teste. O qui-quadrado compara frequências observadas e esperadas em categorias, como a proporção de homens e mulheres que aprovam uma medida; de tabelas assim saem razões de chances e riscos relativos, comuns em epidemiologia. O teste t compara as médias de dois grupos, ou de um mesmo grupo antes e depois; a ANOVA estende a comparação a três ou mais grupos e a mais de um fator, indicando se alguma média difere, com testes posteriores dizendo quais. A correlação de Pearson resume, entre -1 e 1, a força e a direção de uma relação linear, sem informar causa. A regressão usa uma ou várias variáveis para prever outra e estimar a contribuição de cada uma. Todos exigem checar pressupostos e ler o tamanho de efeito, não só o valor p.

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07

Vieses, ética e replicação

Um estudo isolado nunca estabelece um achado; a ciência avança por replicação e acúmulo. Quando um consórcio tentou repetir cem estudos de psicologia publicados em boas revistas, menos da metade reproduziu o resultado original, o que expôs práticas problemáticas: rodar muitas análises e relatar só as significativas (p-hacking), definir a hipótese depois de ver os dados, interromper a coleta quando o resultado aparece. Revistas preferem resultados positivos, o viés de publicação, e estudos nulos ficam na gaveta, distorcendo a literatura. A ciência aberta responde com pré-registro, dados e códigos públicos, relatórios registrados e meta-análises. A ética exige consentimento informado, risco mínimo, confidencialidade e aprovação por comitês; Milgram e Zimbardo mostraram por quê. Confiar num único estudo chamativo é o erro mais comum.

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